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Travessias
de Corpo,
Cor e
Memória

A trajetória de Auá Mendes é marcada por profundas travessias. Rememorar seu início no Palacete Provincial evoca um período de intensa transição, onde corpo, identidade, carreira e expressão artística pulsam em metamorfose. Sua luta, enfrentando adversidades com perseverança, garra e um talento inegável desde o princípio, anunciava um canto singular que precisava ser ouvido e desabrochado. Essas travessias iniciais, feitas com coragem, pavimentaram o caminho para sua arte ganhar o mundo.


Hoje, a obra amadurecida de Auá Mendes ecoa em museus, galerias e espaços culturais diversos. Sua pintura nasce de uma combustão única entre cor e repetição, navegando intrinsecamente entre memória, matéria e transgressão formal. Mais do que representar o visível, ela opera num plano sensível além da forma, criando uma cartografia afetiva única. É um gesto que olha o mundo através de si mesma, evocando tanto os abismos da subjetividade quanto os arroubos de um mundo palpável.


Em seu traço vibrante reside uma rebelião lírica. Como Oskar Kokoschka, para quem "a cor não deve ser uma pele do objeto, mas seu sangue", Mendes não busca harmonias convencionais. Seu trabalho é um embate dramático: a figura humana tensionada por uma paleta cromática intensa e ressonâncias ancestrais. Cada pincelada parece desafiar o limite entre forma e caos, carregando o sangue vital de suas inquietações.

Essa instabilidade formal e emocional ecoa o legado transgressor do modernismo, em especial a ousadia de Anita Malfatti. Tal como Malfatti fragmentou o sujeito em "A Estudante Russa", Mendes opera em zonas de fricção, movendo-se entre o popular e o erudito, o feminino e o andrógino, a tradição e a ruptura. Se Malfatti rompeu com o retrato idealizado, Mendes expande essa ruptura para o corpo coletivo, o território e o tempo, tensionados pelas forças sociais e identitárias.


As paisagens de Auá Mendes não são contemplativas, mas campos magnéticos de delírio cromático. Ela subverte as cores em energia afetiva, realizando uma alquimia psíquica onde passado e presente se fundem como sedimentos de um território íntimo. Em trabalhos recentes, a superfície pictórica expande-se para acolher paisagens mentais e oníricas. Mesmo em aparente silêncio, as telas carregam a tensão do não-dito, como se a própria pintura fosse um corpo atravessado, contorcido e exposto em suas fragilidades.


Auá Mendes não se limita a representar seu mundo; atravessa-o com a fúria do tempo sobre os viventes. Sua arte é um olhar para além do aparente, um sopro vital entre o belo e o inquietante. Ela furou bolhas, levando sua voz e representatividade coletiva para o Brasil e o exterior. Hoje, empunha a bandeira dos que vencem, carregando o título de herdeira originária da ancestralidade Mura – um povo cujo mundo se constrói na transformação e na reciprocidade cósmica. "Sesá Ixé: olhar eu" simboliza essa viagem de retorno a si e às origens, uma celebração criativa que honra os ancestrais e coroa a ousadia de quem não tem medo de atravessar.

Inspirado em texto curatorial da Exposição Sesá Ixé : Olhar Eu

Curadora Cleia Viana

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